18 de setembro de 2020

O deserto do real

 




As queimadas no Pantanal não são um acidente: um cigarro não faz tanto estrago e se fosse, seria o primeiro que atinge apenas terras públicas e áreas de preservação.

As queimadas no Pantanal não são obras de brigadistas e ambientalistas: são eles que lutam, dia e noite, colocando suas vidas em risco, para apagar o fogo no solo e no subsolo.

As queimadas no Pantanal são criminosas e os responsáveis diretos são os grileiros donos de terras, que usam a "técnica" das queimadas "acidentais" há décadas, visando ocupar terras públicas sem pagar por elas. As queimadas criminosas consumiram até agora 15% do maior bioma pantanoso do mundo: segundo dados do Ibama, foram queimados até as cinzas mais de 2 milhões de hectares. Pra se ter uma idéia, essa área corresponde a quase 10 vezes as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro JUNTAS. A tendência, infelizmente, ainda é aumentar durante a estiagem, quando quase não chove na região.

Desde a década de 90, nunca se viu tanta destruição.

Também podemos qualificar o governo atual como responsável indireto. De acordo com a PF, há indícios de que as queimadas começaram deliberadamente em áreas de mata nativa dentro das próprias fazendas. Qual é a estratégica utilizada pelo dono da terra? Como ele é proibido de desmatar áreas públicas ao redor da sua propriedade, ele inicia o fogo no entorno dela, nas áreas inóspitas, para que o fogo parta dali em direção às terras ambientalmente protegidas sem levantar suspeitas.

Onde o governo bolsonarista entra? Na certeza da impunidade. Por um lado, Ricardo Salles, ministro do meio ambiente, cede avião da FAB para transportar grileiros à Brasília a fim de participar de reunião conjunta, com todas as mordomias, e por outro, pega leve com as multas por crimes ambientais, que caíram pela metade este ano.

O governo de Bolsonaro fez drásticos cortes no orçamento do MMA, reduzindo em 58% as verbas destinadas à contratação de profissionais para combate e controle de incêndios florestais. O presidente proibiu a intervenção do exército, que segue calado, cumprindo ordens que atentam contra a nação, e, quando perguntado, o presidente desdenha e minimiza a tragédia, por vezes transferindo a culpa para ambientalistas, brigadistas e mídia.

Recentemente, a ONU fez mais um alerta ao Brasil sobre o risco iminente de sofrer cortes maciços no investimento realizado por outros países, devido ao descaso governamental à devastação da Amazônia e Pantanal, e oito desses países enviaram carta aberta ao vice-presidente Mourão confirmando essa possibilidade.

Os ecocidas seguem firmes e seguros em seu propósito de destruir até a última árvore e animal silvestre, pensando unicamente no lucro. Eles negam as mudanças climáticas, desconhecem a redução da polenização, a alteração no geomagnetismo, o deslocamento das placas tectônicas, e acreditam, arrogantemente, que os recursos naturais que exploram para lucrar não têm fim. Eles têm certeza que nada mudará, que novas pandemias não virão, que catástrofes naturais aceleradas pela destruição ambiental são mentiras e que a sanha humana por carne será perpetua. Eles não entendem que a Terra gira e, com ela, giramos todos. E que as peças no tabuleiro não só se movimentam, como são jogadas pra fora dele.

Eles não sabem - e negariam se soubessem - que as peças somos nós. E que o tabuleiro corre o risco de virar.

 


Caostopia se retirou, achou demais até pra ela

Quase 14 milhões de desempregados e mais de 10 milhões passam fome, segundo o IBGE. Além dos números do desemprego e da fome, que crescem acelerados, o subdesenvolvimento social se agiganta ainda mais com 41,1% da população trabalhadora vivendo de subemprego (leia-se, sem renda fixa e direitos), ou seja, 38,8 milhões de brasileiros sobrevivendo da informalidade (dados de setembro de 2019).

No Twitter, o presidente faz questão de culpar o petê, dizendo que tudo o que acontece hoje é responsabilidade do partido dos trabalhadores. O partido em questão não está no poder desde 2016, mas, segundo o presidente ultradireitista, que prometeu mundos e fundos em 2018 e nada fez em quase 2 anos de governo, são os fantasmas de Lula e Dilma que o impedem de governar como o salvador da pátria que seus seguidores acreditam ser.

O engraçado é que o governo Lula assumiu a gestão de um país quebrado, em recessão econômica e subdesenvolvimento humano alarmante, sem nenhuma credibilidade internacional e devendo ao FMI até os fundilhos furados, mas, em vez de chorar a má gestão direitista desde Getúlio, focou esforços na solução de problemas e em medidas plausíveis de crescimento sócio-econômico aplaudidas internacionalmente. Não é fake news, são fatos que a História do Brasil conta em números, documentos, obras, serviços e mudanças percebidas.

E o que o chefe do clã Bolsonaro fez até aqui pelo país, além de servir aos interesses dos EUA e dos cartéis econômicos e religiosos?
- Não investiu em Educação, pelo contrário, foi um dos que assinou o congelamento orçamentário por 20 anos;

- Não investiu na Saúde, pelo contrário, fatiou verbas e mostra descaso total com a pandemia, a qual chama de "gripezinha" e "fantasia da mídia" (porém, gastando bilhões na compra da cloroquina dos EUA, que o próprio governo trumpista descartou);

- Não reduziu o valor do dólar em real, pelo contrário, a moeda nacional segue em queda, desvalorizada;

- Não diminuiu o preço da gasolina e do gás de cozinha (a eles juntaram-se o preço da carne e do arroz e de outros itens essenciais da cesta básica, devido ao abuso inflacionário);

- Não impediu a reforma previdenciária que disse ser contra;

- Não fez o mercado interno crescer (empresas fecham, multinacionais retiram suas filiais, o pequeno comerciante é excluído da "receita milagrosa" de Paulo Guedes);

- Não aumentou o PIB, como Guedes disse que faria, pelo contrário, o Produto Interno Bruto vem caindo alarmantemente e mesmo sem a pandemia já vinha despencando;

- Não economizou mesmo com cortes e reduções, pelo contrário, gastou com cartão corporativo o que nenhum outro presidente fez, com emendas parlamentares (compra de votos nas duas reformas e apoio do centrão de Rodrigo Maia), com falsa propaganda, com criação de novos cargos comissionados para militares;

- Não trouxe novos investimentos ou expandiu os que tínhamos, mas os colocou em risco;

- Não acabou com a corrupção e a mamata, pelo contrário, reafirmou;

- Não agiu com impessoalidade, pelo contrário, intervém nas polícias e compra o apoio de militares com privilégios;

- Não reduziu a dívida pública, pelo contrário, pretende fazer a reforma administrativa deixando juízes, parlamentares e militares de fora (os que ganham maiores salários, até acima do teto);

- Não cobrou sonegadores que devem bilhões aos cofres públicos, pelo contrário, os anistiou;

- Não aumentou a credibilidade do país lá fora, faz questão de perdê-la.

O projeto que Bolsonaro assina é o mesmo de Pinochet, a quem admira, e que sucateou o Chile, entregando-o de bandeja às empresas e especuladores, que capitalizaram até a última gota dos direitos civis.

É como a série brasileira 3%, estamos chegando lá: com o "Brasil acima de tudo e Deus acima de todos" - o Brasil excludente, reservado a 3%; o deus capital, que exclui o pobre do paraíso. Well done, brazilians!

 



 

29 de abril de 2019

Inevitabilidade



Pra cada livre escolha que você pode, existe uma consequência que você deve.

A insustentável leveza da simploriedade

É simplório e reducionista, com o perdão do eufemismo, acreditar em meritocracia. Não existe isso em uma sociedade capitalista segmentada que se faz da desigualdade e se torna, a cada ciclo, mais desigual. O esforço próprio faz milagres mas ele é limitado e milagres são uma rara exceção. O limite é imposto pelo sistema e ele é aplicado a grande maioria - bilhões de pobres em todo mundo, dezenas de milhões nesse país e subindo. 

Em 2017, só no Brasil registrou-se uma mega concentração de renda nas mãos de 6 pessoas que, juntas, somam o equivalente da renda da metade pobre do país. O capitalismo vai avançando, tornando-se mais o que é, e a cada ano, com o aumento populacional, o número de pobres cresce enquanto o de ricos se reduz a um clube de VIPs. Estamos vivendo numa espécie de distopia leve ou os preparativos de algo ainda mais impactante. A essa altura, depressão, síndrome do pânico e ansiedade são algumas das enfermidades desenvolvidas, seguidas ou não de suicídio, cujos índices crescem assombrosamente (hoje, o Brasil ocupa o 1º lugar no ranking da América Latina de casos de suicídios registrados, a maioria vitimando adolescentes e jovens adultos), enfermidades que atingem especialmente os centros urbanos das grandes metrópoles, onde se concentram milhões de pobres buscando independência econômica num meio de profunda escassez em que as oportunidades, que já eram poucas, diminuem e afunilam. 

Com tantos aspectos, fatores, espectros e vieses sócio-econômicos apontando para o mesmo problema sistêmico, o discurso da meritocracia não é só falacioso, é estúpido e cruel. Persistir nele é varrer o real problema para debaixo de um tapete velho, desbotado e carcomido, que também tem seus dias contados.

23 de agosto de 2017

A inevitável maturidade do tempo


"Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora. Tenho muito mais passado do que futuro.

Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.

Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral. ‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’.

Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa.

Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!"

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TEMPO QUE FOGE, de Ricardo Gondim, extraído do livro "Creio, Mas Tenho Dúvidas" (pelo que verifiquei o texto acima foi atribuído erroneamente ao escritor brasileiro Mário de Andrade sob o título O Valioso Tempo dos Maduros, e também a Rubem Alves e a Mário Coelho Pinto de Andrade, escritor angolano confundido com Mário de Andrade).

Declamação de Antonio Abujamra, ator.


 

14 de junho de 2017

Think

 
"Entre corruptos de todas as siglas, é impossível que um só partido político detenha o status de "corrupto" e, no mínimo, questionável que só um ou dois desse único partido sofram os rigores da lei."
 
 

19 de maio de 2017

Time... remains on my side



Quando comparo o passado da nossa história política com o presente, hoje a impressão é de que estamos pior que em 1964 e nos anos de opressão ditatorial que assolou o país. Pior por um único e imenso motivo: o descrédito do povo em suas instituições, representantes eleitos, autoridades investidas, descrédito em seu próprio sistema legal. Ao contrário de nossos pais, e dos pais de nossos pais, as razões para lutar, por mais suficientes e urgentes que sejam, vão obscurecendo e se tornando obsoletas antes de se esgotarem. Antes mesmo de irem as vias de fato. Os filhos dessa geração nascem presos de um individualismo cada vez mais enfermiço e da desesperança crescente, vão colecionando desmotivações em série e abraçando o design de um futuro degenerado como a um velho amigo. Hoje, o cinismo é alimento para o conformismo - "não vale a pena, é tudo farinha do mesmo saco" - e é difícil até mesmo condená-lo (o cinismo) quando nós mesmos, os que vieram antes, olhamos para o labirinto sem paredes em que somos confinados - o sistema "Sybil", o modum productio, a Matrix, - e não conseguimos achar saída para centenas de milhões de pessoas. Não há uma saída, mas válvulas de escape. Reformas que o próprio sistema assimila e que o redefinem, suplantando-se como uma inteligência artificial de um deus ex machina.  

Nós, os que vieram antes, também estamos cansados. Cada vez mais aversos ao pensamento de insistir no mais do mesmo quando o mesmo leva ao mais de si. Se somos francos, o que hoje nos mantém de pé e nos empurra a seguir, é a persistência da própria vida. É pelo instinto de sobrevivência que persistimos no labirinto de paredes invisíveis, é o senso de prevalecimento que não nos deixa entregar os pontos.

Porque algo precisa ser feito.

Pelo simples fato, inevitável condição de quem respira, de se estar vivo.
E porque não avisaram da falha no sinal da Matrix. Ela deve ter sido plantada ali por um motivo: toda vez que nos movemos contra o sistema, o sistema cria defesas e, quando ultrapassado, se força a um upgrade, um que incorpore reformas de sua velha estrutura. Isso parece fortalecê-lo, torná-lo imbatível como uma intangível Hidra cujas cabeças decapitadas se refazem. Mas o que não é dito, o que é quase que completamente esquecido, o que bilhões não contabilizam - enterrados sob toneladas de distração - é que qualquer movimento contra o sistema põe em movimento a transformação da mentalidade individual e de grupo.

Não é algo que se possa medir em uma única vida, a transformação, mas é algo que parte de um princípio, vai ganhando força e atravessando os corredores do tempo, arrastando, como uma onda, as coisas confinadas no espaço do mundo das coisas.

Não há escapatória.
É uma fatalidade projetada:
Ou paramos e somos definidos pelo sistema ou nos movemos de lugar e o redefinimos.


Quando comparo o passado da nossa história política com o presente... uma palavra se auto define:
AVANTE!

25 de dezembro de 2016

Nota_de_rodapé_natalino.2016





Não que Jesus tenha nascido em 25 de dezembro, como nasceram alguns dos deuses antigos antes dele. Mas mesmo que ele tenha nascido na metade do ano, como leva a crer o censo romano realizado naquela época, a reflexão continua valendo.

Jesus, o bom mestre, veio ao mundo para iluminar as trevas da ignorância espiritual. O homem falou as claras sobre reforma íntima - que ela, mais que o saber de cor as tábuas da lei, é a chave para a evolução -; falou sobre caridade, solidariedade, fraternidade, sobre ser justo e bom; estabeleceu o amor e a verdade como os dois pesos da mesma balança; sabendo que palavras tem menos poder que gestos, foi lá e deu o exemplo: dividiu o pão, a companhia, o pensamento, a paz interior com criminosos, prostitutas, agentes do governo, com leprosos, mulheres e crianças, com doentes do corpo e do espírito (ele mesmo disse, estava ali pelos enfermos, todos os tipos). O homem usou de axiomas que até hoje suscitam debates, foi um revolucionário não só no campo das idéias mas no pragmatismo das ações ao recomendar a mudança radical de certas posturas - idéias e posturas que causaram escândalo aos 'senhores da verdade universal' e que 2000 anos depois continuam importunando, basicamente, qualquer um - alguém certa vez disse que se tivéssemos seguido os preceitos de Cristo, a perspectiva de uma sociedade comunista não precisaria ter sido pensada.

Uma mente assim é uma relíquia, um colosso, a pedra filosofal de uma vida digna, onde não precisaríamos sobreviver um ao outro mas aceitar um ao outro, uma vida de valores e não de preços, um mundo de consciência.

Mas então o que o humano fez com ele? Julgou-o como um criminoso mais detestável que um ladrão ou um "agitador das massas", ou um assassino. Julgou, condenou, sentenciou e executou como o homem mais perigoso. O que não deixa de ser verdade, vá: uma pessoa que ensina e demonstra valores e posturas que ameaçam o modelo padrão de ignorância, medo e ódio é dos "males" o maior. E agora cá estamos: 2000 anos de crucificação diária, as lições de Jesus continuam sendo um perigo, quiçá até mais porque hoje os pagãos e os ateus não são o problema e sim os que se dizem "cristãos".

Os que se dizem cristãos, não os que são. Pois quem é verdadeiramente cristão não busca o ódio como fonte de alimentação e não o espalha; se compraz na justiça, nunca na iniquidade; leva o diálogo e a conciliação; não dissemina discórdia, mas semeia união, o entendimento mútuo; respeita e aceita as diferenças, abraça e trata como igual os diferentes, lavando as mãos de todo julgamento; é honesto, prefere a verdade à mentira, tem paciência com quem dela precisa; tenta praticar o perdão para não se tornar presa do ódio, que mina o bem estar; não usa de hipocrisia ou de falsidade; não inferioriza o outro e sim o incentiva a superar-se; é pessoa de ação, não se acomoda frente as mudanças necessárias que visam o bem maior; enxerga melhorias, age com ética e desprendimento; faz o que é certo, bom e justo, mesmo que a sociedade tripudie ou o condene; tem empatia pelos sofridos e desolados, socorre a quem precisa com o que dispor; inclui pessoas, busca a equidade proporcional, trabalha o espírito de cooperação; sugere, instrui, convida, jamais obriga, mas deseja sempre o melhor a quem segue o seu próprio caminho; seu discurso é racional e espirituoso, desperta ânimo para as boas práticas, reacende a esperança, dá sentido aos elevados valores esquecidos...

Sendo francos, se hoje os que se dizem cristãos tentassem pôr em prática 10% do que Jesus ensinou - e demonstrou com seus atos -, não estaríamos tão ruins - e piorando. Com apenas 10%, por exemplo, haveria bem menos intolerância, bem menos preconceitos e ódio; haveria um pouco mais de ponderação, discernimento, de troca de idéias e não de farpa. Grande parte da população mundial teria uma vida menos indigna com apenas 10% dessas práticas... e a outra parte teria bons exemplos a seguir.

Nesse Natal cristão, de uma Era de Ferro que caminha para a sua totalização, o que VOCÊ tem a oferecer que os não-cristãos, ateus e agnósticos já não o façam?

No que as cores da sua alma se diferenciam?

Fica a reflexão:
Se Jesus batesse a sua porta, você o receberia como quem recebe o maior amigo, fecharia a porta por não reconhece-lo ou fugiria de casa por temê-lo?

Feliz RENASCIMENTO, brotelos. Tem mais 364 dias pela frente!

18 de outubro de 2015

O que Buddha diria se acontecesse...


... o que aconteceu:


- Você acredita em Deus? 

- Acredito. 

- Mesmo? E no outro dia, quando você disse para o N. que não acreditava? 

- E não acredito. 

- Como é isso, então? Acredita, não acredita... Acho que foi para o D., que é meio confuso, que você disse que duvidava. 

- Eu duvido. 

- Vamos lá! Só pode ser um jogo! Acredita, não acredita... duvida... qual é? 

- Existe um jogo e eu o chamo de "tanto faz". Tanto faz a minha resposta, eu não pertenço à equação de nenhum dos três. Por que haveria de importar o que eu digo sobre qualquer coisa que compete a vocês, a seu tempo, 'acreditar, desacreditar e duvidar'? O meu "sim", o meu "não" e o meu "talvez" nada são além de reflexos do que esperam ouvir - afirmação, negação e dúvida. Mas saiba que, não importa o caminho - crença, descrença ou incerteza -, cada um segue por ele sozinho.



Da série Aconteceu que... (1)





- Amanhã terá grupo de discussão, papo-cabeça... vai participar? 
- Não. 
- Não? Mas por quê? Vamos, vai ser bacana, promete render alguns bons debates! 
- Não estou no clima. 
- Não está... o que aconteceu dessa vez? 
- Tsc, por que, diabos, vou debater sobre qualquer coisa quando as pessoas ainda discutem a cor da pele? 
- Danou-se. Acordou de saco astral virado. 
- Acordei o mesmo treco de sempre. O troço do mundo é que continua dormindo.


2 de setembro de 2015

Sofia e a Caixa

Ao fim das discussões daquela noite, sob a rede de estrelas, Sofia me perguntou o porquê de o mundo ir como vai, como se repetíssemos os erros dos que vieram antes de nós.

"O mundo que criamos está confuso, Sofia", eu disse, "Somos quase 8 bilhões de humanos e todos sentimos o peso dessa louca entropia. São poucos os que se mantém lúcidos durante uma viagem psicodélica. Em vários aspectos, evoluímos para o mais do mesmo. Hoje, tudo o que precisamos é de referências já que em outras épocas passamos por algo similar."

Sofia apontou culpados - o homem, a história. Culpou o tempo, que retarda o inevitável. Só não o fez com Deus ("Ele está fora dessa equação", garantiu). "O que fizemos do mundo?", ela me olhou.

"Tantas coisas... algumas interessantes, outras, uma catástrofe. O mundo é o reflexo do que fazemos conosco, Sofia. O homem que luta contra a sua natureza adaptativa é como um vírus, tem essa capacidade de se "cristalizar". Ele endurece, "perde a ternura", se "hermetifica" em sua pequena bolha de ilusões estáveis. E o mundo ao seu redor colapsa. Mudanças que a mão invisível do Tempo alimentou caem como bombas no meio da sua cabeça. Ameaçado em sua bolha e melindrado, ele parte para o ataque usando dos mesmos instrumentos que, outrora, foram empregados para impedir o avanço do devir."

"Sim, mas por que?", perguntou-me Sofia, "Se o passado está bem aqui, ao lado? É um livro aberto...", olhei sugestivamente para ela. "... que nem todos querem ou sabem ler".

"Porque, porque... Porque o homem teme e odeia aquilo que desconhece, porque teme e odeia o que não consegue controlar. Porque erros também são cíclicos. Mudam as gerações, os experimentados cedem lugar aos novatos e estes pretendem, como seus antecessores, fazer o próprio caminho. Ainda que a realidade não seja a mesma, os padrões se assemelham. Porque herdamos a nós mesmos. Mas não tenho interesse nos porquês, Sofia. Não que estorvem, apenas estão aí, todos eles, para quem os quiser ver. Há quase duas décadas minha atenção se volta para o Tempo - não o 'fugit', mas o onipresente. A Terra, seu núcleo, as partículas flutuantes, todo o Cosmo giram. E com eles também nós, em um túnel espiralado que atravessa o "oceano no fim do caminho" de ponto a ponto."

"Estou cansada e nem vi tantas Primaveras... O devir e o inevitável... estamos presos aqui, numa poça de areia movediça", ela apoiou o queixo na mão, os olhos fazendo contornos no chão.

Olhei para ela, olhei para o céu. Uma colcha escura crivada de furos atravessados pela luz.

"A medida do homem é o Entendimento. A boa notícia? Ele chega para todos."

Sofia ergueu os olhos. "E a má?"

"Ele fala a todos, mas nem todos o ouvem".

"E assim, poucos pagarão caro pelo erro fatal de muitos. Não é justo."

Ali perto, tive a impressão de ver uma boca felina cheia de dentes afiados sorrindo no escuro, um sorriso imenso. Um leve comichão passeou em meus lábios de um canto a outro. O gato na caixa revirou-se em seu sono. "Falemos da poesia da justiça e da crueza de sua funcionalidade em outra hora?", ergui-me. Ofereci-lhe a mão. Ela aceitou. As folhas secas estalando aos pés.

"Certo", exalou, "O que vem agora?".

"Que tal xadrez?" Ela riu.

"Você não gosta de jogar xadrez."

"Agora quem falou em jogar?", uma sobrancelha presunçosamente erguida, tocando a testa.

"Então o que?"

"Paciência. Em breve, você também entenderá."

27 de abril de 2015

Vive le Animation!


Outro dia, estávamos conversando sobre animações francesas. Pediram-me para indicar uma ou duas obras consideradas interessantes o bastante para valer a pena assistir. "Não indico duas, indico nove", eu disse, "... a começar:

Pelo espetacular clássico "AS BICICLETAS DE BELLEVILLE"...


... e os fabulosos "CONTOS DA NOITE"


... seguidos dos contos de horror "PEUR(S) DU NOIR"


Depois, o cult "PERSEPOLIS" 

 
... e o icônico "O MÁGICO".

 
Seguidos do genial "O GATO DO RABINO"...

 
... do outro felino, "UM GATO EM PARIS" 

 
 e da crítica animação de humor negro "A PEQUENA LOJA DE SUICIDIOS".



"Por fim, encerrando as indicações de hoje," eu disse, "com o belo "JACK E O CORAÇÃO MECÂNICO".



Depois veio a sessão "animações encantadas japonesas", com uma cascata de clássicos e modernos do tamanho de um mecha. 

Mas e vocês, tem algo em mente para animar o cinema em casa de hoje?

Hal 9000




 
"Você confia nessa pessoa para creditá-la tamanha confiança?", certa vez perguntei ao amigo. 

"Não cegamente, eu seria tolo se assim o fizesse", respondeu.


"Porém o suficiente", insisti.


"Creio que sim", deu de ombros, "Temos afinidades ideológicas e políticas, ela tem estado próxima, é do meu círculo".


"Círculos são quebrados o tempo todo, círculos podem sem viciosos", eu disse.
 

Ele pareceu considerar. "E se fosse você, o que faria?", questionou.


"Evitaria situações assim. Contudo, se fossem impossíveis de afastar, eu seria como o rei desconfiado que mantém sob vigilância os mais próximos de si".


Ele piscou, espantado, e sacudiu levemente a cabeça, sorrindo. "Por que ainda me admiro vindo de você?"


Deslizei no banco, esticando as pernas, e cruzei os braços. "Pense bem, é como o ponto cego de uma câmera", indiquei, com uma inclinação de cabeça, o equipamento no alto, acima de nós, com seu olho mecânico apontando para a praça. "O mais seguro é manter-se fora do seu raio de alcance, e que melhor lugar que o ponto cego? Estar perto da câmera o suficiente, sob ela, é a 'cobertura circunstancial' perfeita, o esconderijo e a camuflagem. O mesmo ocorre com os mais próximos, aqueles que chama de "amigos" pela conveniência da situação, esses a quem delega tarefas e poderes para falar e agir em seu nome".


Ele cruza os braços sobre a mesa de pedra. Ao lado, um cachorro sem dono fareja alimento. O incômodo revira em meu peito. "No meu lugar, o que faria?", ele acena. "O que sugere?"


"Eu não estaria no seu lugar. Por outro lado, não me custa sugerir e minha recomendação é redefinir aquele famoso ditado para algo mais apropriado".


"E que seria...?"


"Mantenha os inimigos perto (o suficiente do seu raio de visão)... e os amigos mais ainda".


"Você as vezes me dá medo", ele riu.


"É culpa de Sekhmet. Quando resolve transitar pelos corredores de Anúbis".