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27 de abril de 2015

Hal 9000




 
"Você confia nessa pessoa para creditá-la tamanha confiança?", certa vez perguntei ao amigo. 

"Não cegamente, eu seria tolo se assim o fizesse", respondeu.


"Porém o suficiente", insisti.


"Creio que sim", deu de ombros, "Temos afinidades ideológicas e políticas, ela tem estado próxima, é do meu círculo".


"Círculos são quebrados o tempo todo, círculos podem sem viciosos", eu disse.
 

Ele pareceu considerar. "E se fosse você, o que faria?", questionou.


"Evitaria situações assim. Contudo, se fossem impossíveis de afastar, eu seria como o rei desconfiado que mantém sob vigilância os mais próximos de si".


Ele piscou, espantado, e sacudiu levemente a cabeça, sorrindo. "Por que ainda me admiro vindo de você?"


Deslizei no banco, esticando as pernas, e cruzei os braços. "Pense bem, é como o ponto cego de uma câmera", indiquei, com uma inclinação de cabeça, o equipamento no alto, acima de nós, com seu olho mecânico apontando para a praça. "O mais seguro é manter-se fora do seu raio de alcance, e que melhor lugar que o ponto cego? Estar perto da câmera o suficiente, sob ela, é a 'cobertura circunstancial' perfeita, o esconderijo e a camuflagem. O mesmo ocorre com os mais próximos, aqueles que chama de "amigos" pela conveniência da situação, esses a quem delega tarefas e poderes para falar e agir em seu nome".


Ele cruza os braços sobre a mesa de pedra. Ao lado, um cachorro sem dono fareja alimento. O incômodo revira em meu peito. "No meu lugar, o que faria?", ele acena. "O que sugere?"


"Eu não estaria no seu lugar. Por outro lado, não me custa sugerir e minha recomendação é redefinir aquele famoso ditado para algo mais apropriado".


"E que seria...?"


"Mantenha os inimigos perto (o suficiente do seu raio de visão)... e os amigos mais ainda".


"Você as vezes me dá medo", ele riu.


"É culpa de Sekhmet. Quando resolve transitar pelos corredores de Anúbis".